Feroswalza: a trajetória de resiliência da família Hahn em Sinop

Publicado em: 07 de Abril de 2026
Foto Por: acervo familiar

A história da madeireira Feroswalza não começa com um plano de negócios estruturado, mas com o som de anúncios de rádio sobre uma terra promissora chamada Sinop e com o deslocamento de quatro homens que deixaram o interior do Rio Grande do Sul em direção ao norte de Mato Grosso, trazendo consigo as famílias, os sonhos, poucos recursos, e a determinação que mudaria suas vidas.

No final da década de 1970, Zairo Justo Hahn trabalhava como motorista de caminhão no Rio Grande do Sul. Mas foi em 1981, que ele decidiu trocar a segurança do Sul pela incerteza do Mato Grosso. Partiu "de mala e cuia", como descreveu o filho Maiko Scheffer Hahn, acompanhado de três amigos e suas respectivas famílias.

A chegada foi marcada por dificuldades. A comunicação dependia de postos telefônicos e a infraestrutura era praticamente inexistente. Os amigos se tornaram sócios e montaram a primeira sede no "15". Levaram um ano inteiro apenas para erguer a estrutura da indústria.

O nome da empresa foi escolhido em homenagem ao elo da amizade e da sociedade entre os quatro fundadores: a junção de Fernando, Osvaldo, Waldemar e Zairo deu origem à Madeireira Feroswalza, cujo nome fantasia era Serraria dos Gaúchos. “Não é sobrenome. É a história dos quatro gaúchos que vieram para cá com um sonho”, contou Maiko.

Após apenas um ano de operação, a sociedade quebrou. Fernando, Osvaldo e Waldemar retornaram ao Rio Grande do Sul. Zairo e sua esposa, Terezinha Scheffer Hahn, permaneceram. “Quando a sociedade quebrou, eles tinham uma fita vertical. Meu pai comprou uma pica-pauzinha, só o quadro da pica-pau e o carrinho da linhadeira. O restante da estrutura da serraria foi construído por ele, tudo feito com pau e madeira, porque não tinha dinheiro. Foi o que sobrou da venda da fita”, comentou.

Dona Terezinha guarda na memória cada detalhe dos primeiros anos em Sinop. "Começou a batalha, com seus altos e baixos. Na época, tudo era dificuldade. A gente não tinha nada de conforto, comodidade, nada. Era tudo sacrifício mesmo", relembrou. Quando a sociedade quebrou e os três amigos retornaram ao Sul, ela e Zairo ficaram. Segundo ela, a decisão foi por teimosia. "Não vamos voltar embora de cabeça baixa, não. Vamos batalhar, e assim foi", afirmou. Sem recursos, a família sobreviveu graças ao salário de professora da dona Terezinha, que sustentou a casa, pedalando quase 20 quilômetros até o centro de Sinop, inclusive para fazer o concurso público estadual que garantiria sua estabilidade como professora.

A dificuldade daqueles anos deixou marcas que o tempo não apagou completamente. Dona Terezinha lembra de chorar em silêncio por não conseguir comprar brinquedos para os filhos. "Primeiro o alimento, para depois um brinquedo", disse. Mas é o orgulho que prevalece quando ela olha para tudo que foi construído. "O que mais me orgulha é ver meus filhos bem. A gente conseguiu, venceu", declarou. Hoje, aposentada e morando em Torres, no litoral gaúcho, ela acompanha de longe o sucesso da empresa Feroswalza.

Maiko nasceu em Sinop três anos após a chegada dos pais e cresceu dentro do pátio da serraria. Ainda criança, ele e o irmão mais velho, Daniel, trabalhavam ao lado do seu Zairo e de dona Terezinha. Isso significou aprender pelo exemplo, prática e pelo sacrifício. A infância dentro da serraria tinha seu lado divertido, mas também os seus riscos. Dona Terezinha recordou de dois episódios que quase terminaram em tragédia. Daniel estava cortando uma tora de madeira com uma motosserra, quando o equipamento travou e se voltou no sentido contrário, cortando seu rosto e a segunda, quando Maiko, entre seus 10 e 11 anos, caiu dentro de uma fogueira de cinzas em brasa enquanto ajudava nas atividades do pátio. "Ele ficou 19 dias, 19 noites sem me deixar dormir", relembrou. O médico que o atendeu classificou as queimaduras como as mais graves que já tinha visto. Após cirurgia para limpar as bolhas de sangue formadas, o filho se recuperou sem cicatrizes visíveis. Para dona Terezinha, foi mais uma prova de que Deus andava junto com a família naqueles anos difíceis. "Deus foi bem generoso", disse.

Maiko e Daniel acompanharam de perto todas as mudanças da empresa. Com o tempo, Daniel seguiu o próprio caminho em Juína. Zairo e Terezinha aos poucos foram se afastando da operação. "Deixamos o barco andando nas mãos do Maiko", recordou dona Terezinha. Quando assumiu a gestão integral da empresa ao lado da sua esposa, Bruna Riceli Malaquias Hahn, Maiko considera que foi sua grande mudança de vida. "Um dos momentos que acho que foi a virada da chave da minha vida foi quando separamos a sociedade com meu irmão. Ali pensei: ‘Vou parar, vou continuar, o que vou fazer da minha vida?’ Eu estava sem saber o que fazer. E ali a família apoiou para tocarmos a empresa. Foi ali que eu falei: ‘Eu quero isso para mim e para a minha vida’. E fui pegando amor", explicou Maiko. Sob sua gestão, a empresa diversificou as operações, investindo no beneficiamento da madeira e criando uma transportadora própria para escoar a produção.

Quando Maiko fala do pai, um ensinamento permanece marcado em sua história: a honestidade. Mesmo diante das dificuldades, Zairo nunca abriu mão de fazer o certo. “O que meu pai e minha mãe passaram para mim, para o meu irmão e para quem estava em volta, foi fazer as coisas certas. Ele nunca quis passar por cima de ninguém, prevalecer, tentar prejudicar alguém para ganhar alguma coisa. Então, a questão do princípio e do caráter é uma coisa que meu pai e minha mãe me ensinaram muito”, ressaltou.

Esse princípio se tornou base não apenas da empresa, mas da forma de viver. “Se eu conseguir ser metade do que o meu pai foi, já estou contente, porque o vejo assim: um homem íntegro, sério, familiar, honesto. Ele sempre fez tudo o que pôde para levar o nome da empresa limpo, íntegro e, em consequência, o dele junto”, afirmou Maiko.

Ao longo dos anos, o setor de base florestal se transformou. O mercado expandiu e, com ele, vieram novas obrigações ambientais. No entanto, para Maiko, o olhar sobre a floresta sempre foi o mesmo. “A floresta em pé é linda. É uma criação perfeita de Deus”, afirmou. Ele defende que o setor madeireiro é o maior interessado na preservação da floresta. “Através do manejo, dou sustento para minha família e para muitas outras. Eu sou apaixonado pela floresta e sou um grande defensor. Acredito que somos um dos principais, se não o principal defensor da floresta”.

Bruna contou que, quando começou a namorar Maiko, ele já trabalhava na empresa do pai, ajudando nas operações ao lado do irmão. "Não entendia nada sobre madeira e nunca tinha tido contato com madeireira, só via as toras no pátio", admitiu. A mudança veio com o casamento e o nascimento de Matheus, em 2007. Um ano depois, Bruna foi chamada para ocupar a área administrativa do escritório.  Ela não apenas cuidava da burocracia, ia para a serraria aos domingos, ao lado do marido, para recolher os resíduos de madeira. Mas seu papel, ia além do trabalho físico. Ela era o alicerce emocional. "Eu sempre o ajudava para não deixar ele desistir", afirmou.

Para Bruna, a Feroswalza nunca foi apenas uma madeireira. "É uma história de família Para nós, estar no ramo e continuar o legado é uma questão de honra. Posso dizer que trabalhar com a madeira é porque a gente ama o que faz. Quando a gente vê a história de vida do seu Zairo e da dona Terezinha, nos orgulhamos tanto de tudo que eles conquistaram, independente dos altos e baixos, não queremos deixar isso morrer", enfatizou.

O que mais impressiona Bruna é a reinvenção do marido. Bruna se orgulha do homem que Maiko se tornou. "Eu admiro muito ele, é uma pessoa persistente, sonhadora. Quando quer as coisas, é muito determinado, vai atrás, corre atrás daquilo que deseja. Ele continua com a mão na massa, apoiando a equipe, mas agora com visão de negócio. Ele fica na indústria. Eu fico no escritório. Ambos se apoiam”, ressaltou.

A primeira carga de madeira serrada que saiu da Feroswalza teve como destino Três Cachoeiras, no Rio Grande do Sul. O comprador era uma empresa de móveis que transformou aquela madeira em bancos da igreja católica da cidade. Para Maiko, esse início tem um significado que vai além de uma simples venda: a primeira madeira produzida pela família virou algo que atravessa décadas e continua servindo à comunidade até hoje.

Hoje, a Feroswalza opera com uma equipe de oito funcionários e mantém o foco na madeira serrada bruta para caixaria, madeira para cobertura, pergolados e alguns produtos beneficiados, como deck e ripado. A produção abastece clientes no interior de São Paulo, no Paraná e dentro do estado de Mato Grosso.