Da carriola de pó de serra à própria madeireira: a história de Moacir Schmitz em Sinop

Publicado em: 09 de Outubro de 2026
Foto Por: Família Schmitz
Fonte: Família Schmitz

A história de Moacir José Schmitz com o setor madeireiro começou ainda na infância, quando ele chegou a Sinop acompanhado da família, vindo de Salete, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Aos poucos, o menino que puxava pó de serra com uma carriola dentro da madeireira foi aprendendo as diferentes funções de uma serraria e construindo uma trajetória que atravessa décadas da história do município.

O pai, que era sitiante no Sul, chegou a Sinop em 1975 para trabalhar com Comercindo Tomelin, na antiga Madeireira Tomelin. No ano seguinte, trouxe a família para o município. Moacir, com apenas seis anos, começou a acompanhar a rotina da serraria. “Meu pai não deixava sem fazer nada. A gente puxava pó de serra. Estudava de manhã e, de tarde, trabalhava. Isso era normal de todas as molecadas”, lembrou.

A família também passou pela Madeireira Mafasa, que segundo Moacir “era a madeireira mais forte, mais bem vista, mais bonita e mais moderna” da época, onde a família permaneceu até 1979. Depois veio a Imasul, no trevo de Santa Carmem, onde a família trabalhou até 1983. Lá, o pai atuava como gerente, enquanto Moacir ocupava as funções mais pesadas da serraria, como alinhador e serrador. "Ali aprendi a fazer tudo", disse.

A virada veio ainda na adolescência. O patrão da família decidiu fechar a serraria em que trabalhavam para montar um depósito em Rondonópolis. O pai e o irmão, Arno Antônio Schmitz decidiram que iriam assumir essa empreitada, mas Moacir se recusou a ir como empregado. "Falei que não. Se fosse para trabalhar de empregado, ia continuar trabalhando aqui", recordou. O irmão desistiu da mudança e o pai, posteriormente, acabou desistindo também. Foi nesse período que Moacir comprou uma pequena Pica Pau, em homenagem ao pai, a primeira empresa carregou o nome dele: Osni Antônio Schmitz. A conquista veio quando ele ainda era muito jovem. Com cerca de 15 ou 16 anos, já estava à frente do negócio junto com o pai e o irmão. A empresa, que mantém vínculo histórico com o Sindusmad desde os primeiros anos da entidade, está entre as associadas mais antigas do sindicato. Aos 16 anos, foi emancipado pelo pai e abriu uma conta no Banco do Brasil.

A partir de 1983, aproximadamente, a rotina da família passou a se dividir entre a produção e a busca pela matéria-prima. Nos anos de 1988 e 1989, Moacir permanecia à frente da madeireira, enquanto o pai e o irmão, passavam dias trabalhando no mato para retirar as toras que abasteciam a Pica-Pau. A atividade se concentrava nas regiões que hoje são conhecidas como comunidades, Brígida e Ângela.

Naquele período, a falta de energia elétrica também fazia parte da rotina. Segundo Moacir, a energia chegava à noite e permanecia disponível por algumas horas. Era nesse intervalo que a produção acontecia. “Pra nós tinha que trabalhar tudo em dobro porque não tinha dinheiro. Trabalhava dia e noite, porque passava a noite trabalhando”, recordou. Durante o dia, sem energia para serrar, ele aproveitava para fazer outros serviços.

Moacir contou que ele e o pai eram vistos como bons trabalhadores e por onde passaram, deixaram boas referências e amizades. Com a falta de recursos financeiros para investir, uma prática que eles chamavam de ‘padrinho de madeireiro’. Nereu Pasini, que viria a ser o quarto presidente do Sindusmad, foi o padrinho de Moacir. Com ele, fecharam um acordo simples: 5 metros cúbicos de tora de itaúba por 1 metro cúbico de madeira serrada para o padrinho. O resto ficava com a família. “Não tinha dinheiro para comprar de terceiro. Então o Nereu colocava tora para nós, nós serrava e pagava ele em tora serrada. Foi assim que começou a sobrar um pouco de dinheiro para poder começar a fazer os estoques e comprar tora de terceiro”, explicou.

Como a madeireira ficava à beira da BR-163, isso facilitava a venda. "Serrava dois metros cúbicos de régua, passava um carro, colocava em cima e levava", contou. Geralmente, o destino era a região de Jaciara, Juscimeira e cidades vizinhas. Na época, o controle florestal passava pelo Instituto Brasileiro de Desenvolvimento Florestal (IBDF). Moacir lembra da ATPF, a Autorização para Transporte de Produto Florestal, uma guia impressa na Casa da Moeda.

No fim da década de 1980, a atividade mudou de endereço. Moacir se estabeleceu onde a empresa permanece até hoje, no bairro São Cristóvão. A madeireira, segundo ele, foi a primeira do setor a se instalar naquela região. Com o passar dos anos, vieram as casas, novos trabalhadores e outros estabelecimentos. “Aqui no bairro São Cristóvão, fomos a primeira madeireira que montou. Depois foi se desenvolvendo, vieram as casas, foi dando mais emprego. Os empregados já queriam morar mais perto”, contou.

Ao longo da trajetória, a empresa também acompanhou as mudanças na logística e no acesso à matéria-prima. Moacir lembrou que, no início, caminhões pequenos percorriam distâncias que, para a época, já eram consideradas longas para buscar toras. Com o passar dos anos, os veículos aumentaram de capacidade e permitiram buscar madeira cada vez mais distante. “Primeiro vinha um caminhãozinho toco, depois o truck, depois virou carreta, depois carreta dois eixos, depois virou 9 eixos. Conforme os caminhões iam aumentando, dava pra buscar mais longe. Antigamente para um caminhão buscar tora em 10 a 15 quilômetros era longe”, contou.

Nos anos de 1993 e 1994, a família também passou a fazer a entrega da madeira serrada. Arno era responsável por carregar os caminhões na Pica-Pau e transportar a produção para municípios do interior de São Paulo e de Minas Gerais, ampliando o alcance da empresa.

Em 1995 e 1996, a família comprou a primeira pá-carregadeira, que passou a ser utilizada no abastecimento da própria serraria e nas demais atividades do pátio. Nas horas vagas, o equipamento também era utilizado na prestação de serviços para outras madeireiras da região. Poucos anos depois, entre 1998 e 1999, a família instalou uma serra-fita deitada. Com a mudança, Arno passou a atuar diretamente na serraria, acompanhando o pátio, os funcionários e a produção.

Sobre a empresa, Moacir contou que o segredo da longevidade do negócio é a honestidade. "A gente sempre trabalhou com bastante honestidade. O orgulho que tinha sempre de pagar certo, a gente sempre teve um bom nome na rua." A fama de bom pagador rendeu até apelido. "Eu era conhecido como o alemão das perobas", disse. Esse apelido surgiu na época em que trabalhava principalmente com peroba e cedrinho. No auge, a empresa chegou a serrar cerca de 500 metros cúbicos por mês e operava com dois caminhões de nove eixos. Pela fama de bom pagador, quem vendia toras de peroba queria negociar com ele.

O pai, com quem Moacir e  seu irmão, Arno construíram tudo, morreu em 2011, quando ele tinha cerca de 40 anos. Para ele, é uma perda que o tempo não consegue superar. "A falta de um pai vai ser aquela falta que todo mundo sente. A gente vai sentir a vida inteira, pela boa educação que deram pra gente, o jeito de trabalhar tudo certinho, servir em família". Segundo ele, a herança deixada pelo pai foi a educação, a honestidade e a família unida. A mãe mora na frente da madeireira e o irmão, ao lado. "Somos só três, estamos todos os dias juntos", afirmou.

Hoje, a empresa conta com sete funcionários e continua sendo conduzida pela família. Moacir contou que os filhos e sobrinhos passaram pela empresa ao longo dos anos, mas apenas o filho Mikael foi quem permaneceu. Ele trilhou os mesmos caminhos do pai e, ainda adolescente, começou puxando pó de serra e limpando o pátio. Com o tempo, aprendeu diferentes funções da produção. "O único que trabalha junto comigo é o meu filho Mikael, é por isso que estamos até hoje aqui. E ele está decidido que só quer fazer isso", afirmou. Mikael cursou Administração, mas já trabalhou em quase todas as funções da serraria.

A empresa continua atendendo principalmente a construção civil, trabalhando atualmente com cambará, peroba e cedrinho. Para Moacir, o futuro do setor passa pela capacidade de encontrar novos usos para a madeira e agregar valor ao produto. “Uma coisa que você vê, uma coisa mais chique, é o que trabalha com madeira. Sempre vai ter madeira. A gente vai ter que aprender a trabalhar melhor”, disse.

Da carriola usada para puxar pó de serra à gestão da própria empresa, a história de Moacir, construída ao longo de mais de quatro décadas dentro de uma serraria, se confunde com a transformação do setor madeireiro e da própria formação de Sinop.